Ultimamente ele tem ido com muita frequência àquele quarto, sentia a necessidade de trocar de máscara, mais uma vez. Paco era um daqueles bonecos de madeira articulados e estava acompanhado por seu cão, Ulisses, que ele achava um pouco esquisito mas era um cão muito sensato e sempre lhe deu bons conselhos.
Paco tem o costume de usar máscaras, e as usa há tanto tempo que nem se lembra de quando começou. Sempre representou muito bem o papel que cada uma pedia, mas recentemente nenhuma conseguia o deixar confortável, nem satisfeito, ele não sabia bem o porque, mas Ulisses o tinha dito que "o problema não era com as máscaras e sim com ele", Paco não tinha certeza do que isso queria dizer mas achava que o cão provavelmente estava certo, como sempre.
O quarto não era um lugar exclusivo para guardar máscaras, lá ele também guardava várias outras "tralhas", como por exemplo alguns álbuns de fotografia, que Ulisses chamava de recordações, guardava também uns poucos troféus dos quais tinha muito orgulho, Ulisses chamava esses de talento, havia também um espelho que ele achava muito difícil de encarar apesar da insistência que Ulisses fazia para que ele o encarasse, ao espelho o cão deu o nome de realidade. No quarto também tinha umas fantasias e maquiagens que Paco ganhou de outras pessoas mas que nunca gostou de usar, e um bocado de outras coisas que ele não se lembrava, ou não sabia, de como foram parar lá pois ele também nunca deu atenção para saber oque eram.
E lá estava ele mais uma vez naquele quarto, olhando para a estante de máscaras, tentando decidir qual iria escolher.
- Você já sabe né? Nenhuma vai te ajudar... - disse Ulisses
- Mas por quê? Antes não era assim
- E você não é mais como era antes. Você cresceu, continua crescendo.
Paco parou e pensou, e viu que Ulisses provavelmente estava certo. Ele não percebia que havia "crescido" mas de fato se sentia diferente.
- Mas e agora? O que eu faço?
- Bom,deve ter de tudo nesse quarto... Alguma coisa aqui deve ajudar. Vamos dar uma olhada.
Eles começaram a mexer em tudo o que viam, deram risada de algumas coisas, ficaram um pouco assustados com outras e se sentiram muito bem quando encontraram coisas de que nem se lembravam mais.
- Sabe, a gente tem que organizar melhor essas coisas, deixar mais visíveis as coisas importantes - disse Paco
- E não ao contrário né!
Depois de muito procurar, no fundo do quarto eles encontraram uma gaiola com 3 passarinhos muito mal cuidados, que suspiravam tristemente, e assim que os viram aos poucos começaram a se lembrar deles.
- Eles estão aqui desde sempre e você não tem cuidado muito bem deles - lembrou o cão
- Eu nem me lembrava que eles ainda estavam aqui... Como é que sobreviveram tanto tempo sem cuidados?
- Eles nunca morrem. Você sabe quem são eles?
- Não tenho certeza... sei que são importantes, e me lembro que você chamava eles de sonhos
- Podem ser chamados de várias coisas na verdade, eu é que prefiro chamá-los assim... Lembra o que eles fazem?
- Vagamente. Sei que tenho que cuidar deles, pois se eu fizer isso por eles, ele farão algo por mim. Ah, e eles nunca vão ter o mesmo tamanho!
- Exatamente! Um deles pode te fazer se sentir completamente feliz, mas não a felicidade banal e momentânea que todos conhecemos, mas uma felicidade plena e satisfatória, o outro pode te trazer sucesso, digamos que em qualquer caminho que escolher você será lembrado e admirado por tudo o que fizer, o último te traz amor,amor romântico principalmente. E é você que escolhe qual deles será o maior.
Paco olhou para os passarinhos e se sentiu muito feliz pois sabia o que devia fazer para deixar tudo certo, com ele e com os sonhos.
- Bom, acho que encontrei o que procurava! Já podemos ir
Antes de saírem eles organizaram o quarto, deixando as coisas importantes bem visíveis. Quando chegaram na porta Paco olhou para trás, deu uma olhada no quarto e viu, bem ao fundo, a estante de máscaras, e sentiu uma mistura de medo e insegurança, porque a partir daquele momento não teria mais as máscaras para se apoiar, teria que se apoiar em si mesmo.
- Tudo bem! Isso é normal, significa que você está mesmo crescendo - foi o que o cão lhe disse
Ele concordou. Sabia que Ulisses estava certo, como sempre. E fechou a porta.
Vinícius Campos
Vinícius Campos

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