quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Escrevo, reescrevo e me perco.



   
   Tenho tantas e tantas coisas pra dizer e para não dizer, e dentre essas tantas e tantas coisas, poucas são as que fazem sentido.
 E como falar sobre elas, já que estão perdidas em alguma parte desse meu coração de plástico?
São tão desprezíveis e magníficas, confusas e óbvias, possibilidades e impossibilidades.
Coisas sinceras e outras sutilmente mascaradas. Mas no final, são apenas coisas, nada além de coisas.
E por estarem tão perdidas é que as palavras assim se perdem também, são desfeitas pelo próprio tempo. Assim como os rabiscos gravados nos móveis de madeira de uma casa abandonada.
Por vezes elas foram ditas e logo depois retiradas (ou pelo menos, tentam retira-las)
Mas no final, não são apenas palavras, vão além disso.
Elas estão em cada silêncio, em cada abraço, em cada troca de olhares de dois jovens estranhos passando pela Rua 89 de uma esquina qualquer.
Eles se olham e conversam, ambos sem dizer nada, um silêncio repleto de exclamações.
E nas fotos, músicas, lugares e sorrisos, estão milhões de coisas sendo exprimidas.
Sou apaixonada pelas palavras, e principalmente pelo que vai além delas,é um mundo desconhecido cheio de coisas e de algo a mais. “um algo a mais’ tão inimaginável, incompreensível e indescritível. Tão ‘in’ e tão ‘vel’.
 Mas talvez eu esteja enganada, talvez palavras são apenas palavras, nada além de palavras. Talvez no silêncio exista apenas ele próprio, assim como nas fotografias e nos rabiscos na tal mesa de madeira.
Talvez músicas sejam músicas e lugares são lugares e talvez não exista nenhuma exclamação abstrata em sorrisos e abraços.
São tantos ‘ talvez’ e tão poucos jovens atravessando a esquina 89, e se olhando, e não dizendo nada, pois “é difícil dizer o que não pode ser dito”.
 E aqui estou eu, me contradizendo e me perdendo nas coisas mais uma vez.
Dizendo o que já foi proferido e tentando dizer o que não pode ser dito.
Mas só queria acabar por aqui, com um fim coerente. Mas não consigo.
E o que te escrevo, é com o mínimo de teor.
Então não me proteste, pois desde o começo você soube da ausência do sentindo nas palavras que se seguiram.
E já que cansei de escrever, reescrever e me perder, só me resta dizer que aqui jaz o malfeito fim.

Mariana Hugueney.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Queime antes de ler


  
    Nunca fui tratado como "normal", sempre fui no mínimo o estranho da roda, com o gosto exótico e com citações desconhecidas. Bem, queria eu saber quem definiu a tal linha da normalidade, do vocabulário certo e do gosto massivo. Mas se essas qualidades são para pessoas "normais", prefiro ser o Sr. Esquisito. 
       Todavia, não é tão fácil assim ser o "diferente" em meio a tantos "comuns". Focar e desfocar imagens com o próprio olho é um tanto constrangedor, olhar para sombras e imaginar dela um vetor, trocar palavras rebuscadas por palavras que o meu público alvo no mínimo entenda, e claro, achar que minha vida é um curta dirigido por Woody Allen. 
       Seja lá o que for, vivo uma desventura dramática nada intensa, dentro de algum quadro feito com cores de almodovár (pintado no mínimo na era medieval). Não sei de qual arvore genealógica fui influenciado, apenas sei que sou feito de saudades de sarcasmos, crises e detalhes.
         Antes que te deprimas com minha biografia nada célebre, quero dizer que  desacredito que sou ''eternamente responsável por aquilo que eu cativo". E por fim, e menos importante, continuo desentendo o gosto das pessoas a serem tão iguais. 

Gabriell Vieira

sábado, 10 de dezembro de 2011

A menina e o vento


- "Gosto do clichê, da rotina, do épico. Mas quero algo novo, algo improvável, fora de planos e de programações. Um imprevisto, um imprevisto suavemente agradável, por favor." - sussurrou a menina para o vento.
O vento por sua vez nada respondeu.
Então ela sorriu e pensou "esse silêncio foi um sim".
E estava pronta, pronta pra não estar pronta e mesmo assim seguir em frente.
E estava esperançosa por algo terrivelmente bom.
- "O que tens pra mim hoje" -  perguntou a um pássaro que pousara em um dos galhos da árvore em que estava encostada.
Ele por sua vez assoviou, como bem fazem os pássaros.
Então, ela mais uma vez sorriu e pensou "é surpresa".
Aquele seria o dia, o dia mais feliz de toda a sua vida. E por que?
Porque ela decidiu que seria.
A menina saiu, e foi embora. Para onde foi? Ninguém sabe, nem mesmo ela sabe.
Está seguindo o vento, seguindo os sonhos, seguindo. Fazendo tudo aquilo que um dia jurou que não iria fazer.
Uma hora corre, outra hora anda devagar, caminha no ritmo da música.
Da música que ela acabou de inventar.

Mariana Hugueney

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

desejos de um lençol



7:10 da manhã, sim, esse é o horário exato do meu despertar. O despertador me puxa brutalmente de uma noite mal dormida, acordo, abro os meus olhos, fexo-os novamente. Meu vício diário me leva a minha imaginação, ou melhor, nos meus sonhos, que prefiro sonha-los de olhos fechados porem acordado. A ilusão se deita a minha cama e se junta ao meu prazer, nos tornando apenas um. Começo a sonhar. Imagino todos os dias você ao meu lado, sendo acordado com um beijo, e com um café da manha na cama. Sonho. Sonho em poder te abraçar em qualquer hora do dia e te beijar na hora que eu quiser, assistir uma comédia romântica embrulhados com um leve cobertor, cozinhar juntinhos, ou apenas nos deitar de conchinha com uma musica acústica ao fundo. O barulho do aparelho e a realidade me assustam, os sonhos se vão rapidamente, e eu ainda desejo não sair daquele vício, da minha doce droga. Me levanto e respiro, inspirado pelo sopro de vida que você me deu mesmo não sabendo, ponho os pés no chão e continuo a sonhar com você e comigo apenas nós dois.


Gabriell Vieira

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O quarto das tralhas


Ultimamente ele tem ido com muita frequência àquele quarto, sentia a necessidade de trocar de máscara, mais uma vez. Paco era um daqueles bonecos de madeira articulados e estava acompanhado por seu cão, Ulisses, que ele achava um pouco esquisito mas era um cão muito sensato e sempre lhe deu bons conselhos.

Paco tem o costume de usar máscaras, e as usa há tanto tempo que nem se lembra de quando começou. Sempre representou muito bem o papel que cada uma pedia, mas recentemente nenhuma conseguia o deixar confortável, nem satisfeito, ele não sabia bem o porque, mas Ulisses o tinha dito que "o problema não era com as máscaras e sim com ele", Paco não tinha certeza do que isso queria dizer mas achava que o cão provavelmente estava certo, como sempre.

O quarto não era um lugar exclusivo para guardar máscaras, lá ele também guardava várias outras "tralhas", como por exemplo alguns álbuns de fotografia, que Ulisses chamava de recordações, guardava também uns poucos troféus dos quais tinha muito orgulho, Ulisses chamava esses de talento, havia também um espelho que ele achava muito difícil de encarar apesar da insistência que Ulisses fazia para que ele o encarasse, ao espelho o cão deu o nome de realidade. No quarto também tinha umas fantasias e maquiagens que Paco ganhou de outras pessoas mas que nunca gostou de usar, e um bocado de outras coisas que ele não se lembrava, ou não sabia, de como foram parar lá pois ele também nunca deu atenção para saber oque eram.

E lá estava ele mais uma vez naquele quarto, olhando para a estante de máscaras, tentando decidir qual iria escolher.

- Você já sabe né? Nenhuma vai te ajudar... - disse Ulisses
- Mas por quê? Antes não era assim
- E você não é mais como era antes. Você cresceu, continua crescendo.
Paco parou e pensou, e viu que Ulisses provavelmente estava certo. Ele não percebia que havia "crescido" mas de fato se sentia diferente.
- Mas e agora? O que eu faço?
- Bom,deve ter de tudo nesse quarto... Alguma coisa aqui deve ajudar. Vamos dar uma olhada.
Eles começaram a mexer em tudo o que viam, deram risada de algumas coisas, ficaram um pouco assustados com outras e se sentiram muito bem quando encontraram coisas de que nem se lembravam mais.
- Sabe, a gente tem que organizar melhor essas coisas, deixar mais visíveis as coisas importantes - disse Paco
- E não ao contrário né!
Depois de muito procurar, no fundo do quarto eles encontraram uma gaiola com 3 passarinhos muito mal cuidados, que suspiravam tristemente, e assim que os viram aos poucos começaram a se lembrar deles.
- Eles estão aqui desde sempre e você não tem cuidado muito bem deles - lembrou o cão
- Eu nem me lembrava que eles ainda estavam aqui... Como é que sobreviveram tanto tempo sem cuidados?
- Eles nunca morrem. Você sabe quem são eles?
- Não tenho certeza... sei que são importantes, e me lembro que você chamava eles de sonhos
- Podem ser chamados de várias coisas na verdade, eu é que prefiro chamá-los assim... Lembra o que eles fazem?
- Vagamente. Sei que tenho que cuidar deles, pois se eu fizer isso por eles, ele farão algo por mim. Ah, e eles nunca vão ter o mesmo tamanho!
- Exatamente! Um deles pode te fazer se sentir completamente feliz, mas não a felicidade banal e momentânea que todos conhecemos, mas uma felicidade plena e satisfatória, o outro pode te trazer sucesso, digamos que em qualquer caminho que escolher você será lembrado e admirado por tudo o que fizer, o último te traz amor,amor romântico principalmente. E é você que escolhe qual deles será o maior.
Paco olhou para os passarinhos e se sentiu muito feliz pois sabia o que devia fazer para deixar tudo certo, com ele e com os sonhos.
- Bom, acho que encontrei o que procurava! Já podemos ir
Antes de saírem eles organizaram o quarto, deixando as coisas importantes bem visíveis. Quando chegaram na porta Paco olhou para trás, deu uma olhada no quarto e viu, bem ao fundo, a estante de máscaras, e sentiu uma mistura de medo e insegurança, porque a partir daquele momento não teria mais as máscaras para se apoiar, teria que se apoiar em si mesmo.
- Tudo bem! Isso é normal, significa que você está mesmo crescendo - foi o que o cão lhe disse
Ele concordou. Sabia que Ulisses estava certo, como sempre. E fechou a porta.

Vinícius Campos

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

E lá vem ela


Sentada, eu e o silêncio.
E de repente ela vem, tão sutil e assustadora.
Ela não tem uma boa razão para estar aqui.
Vem sem barulho e sem nada, é apenas ela.
Não manda recado, não pergunta se pode vir, apenas vem.
Vem com suas músicas, suas cores, com seus assuntos e com suas piadas sem graças.
Muda os móveis, muda meu sorriso e meus olhares, muda minha voz e às vezes muda até minhas opiniões.
Ela nem percebe que eu não gosto dela, aliás, percebe, mas ignora.
E eu tento fazer o mesmo, tento ignora-la.
Mudo os móveis de novo, dou meu sorriso, coloco minhas músicas, minhas cores e até volto com minhas antigas opiniões.
Mas ela continua, eu poderia chama-la de persistência, mas ela já tem nome, é a tristeza.
E da mesma forma que vem vai embora, e eu continuo só.
Aliás, continuo eu e o silêncio.

Mariana Hugueney

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sem reflexos

Em qualquer lugar do mundo, um menino com grandes óculos pretos e uma máquina fotográfica pendurada em seu pescoço, andava a procura daquilo que o fizesse viver, ele queria sorrir sem motivos, queria sentir aquele prazer do vento batendo em seus cabelos, ele queria que seu coração acelerasse novamente por algo, alguém ou por qualquer coisa que se mexesse, e talvez ansiava por conhecer ele mesmo. Já tinha cansado daquela vida que "vivia" para agradar aos outros, queria alguma coisa nova mas algo ou alguém o impedia. O menino continuo a andar pela cidade sem nome, cuja as ruas era silenciosas e pacatas, passou em frente a um velho museu, imponente até de mais para aquele interior. Entrou. Observou os quadros, as estatuas de pedras, mexeu em alguns livros velhos, mais nada disso o chamou atenção. Então, avistou no fundo do museu uma grande porta dourada, com uma enorme maçaneta de madeira, e mais uma vez se sentiu muito pequeno em frente daquele poderoso gigante de ouro, empurrou com toda sua força, houve um grande ranger e abriu uma pequena fresta,ele conseguiu entrar com muita dificuldade, sentiu um medo muito grande mas continuou a andar (quase na ponta dos pés) silenciosamente. A sala era escura e gélida, porem havia uma pequena luz no fundo que iluminava um grande e majestoso espelho, antigo e sujo. Chegou a observar cautelosamente a moldura descascada, e percebeu que o espelho era prateado, pela pouca cor que ainda tinha, andou por de trás, tocou, até desenhou uma coruja sobre a poeira, mais não ousou em olhar para si. Sentou em frente ao espelho de olhos cerrados, passou muito tempo ali, até que sentiu uma pontada de esperança, criou coragem e enfim abriu os olhos. A imagem do espelhoo assustou que até souto um grito, ele estava se vendo, porem não apenas uma imagem dele, mas três pessoas iguais a ele. Ficou observando aquilo por um bom tempo com um nó na garganta até que decidiu falar algo: "Oi, quem são vocês?" e rapidamente as três imagens responderam em um grande tumulto, mais ele não compreendera nada, cada uma falara um nome diferente. Então fez a mesma pergunta apontando para cada um. "Oi, quem é você?". O primeiro "ele" respondeu: "sou o medo, o seu medo, aquele que te impede de conquistar aquilo que realmente você sonha, ponho impessilios, e sempre digo que você não é capaz e nunca vai conseguir. Seu Frustrado!". O menino engoliu seco e seu coração apertou, ficou mudo, e logo o outro reflexo começou a falar. "Sou o seu passado, que sempre te lembra das piores coisas que você já viveu, assim interfiro no seu futuro te prendendo na nostalgia, adoro um remorso e sempre te impeço de sorrir" O menino continuava estupefato e com lágrimas nos olhos, o ultimo reflexo começou a falar em um tom irônico: "E por fim, e não menos importante sou o Temor às Pessoas mais conhecido como Reputação, você sempre está em minha mãos é tão fácil te prender, te deixar imóvel, sem ação; Adoro usar minhas pessoas pra te deixar em lágrimas, pra não executar seu projetos, eu te faço agradar aos outros, em vez de você mesmo, assim, acabo te frustrando, roubando a pouca vida que tem. Verme!" O menino se levantou em lágrimas, as imagens refletidas estavam em risos altos enquanto o menino se ajoelhava mais uma vez. Com o rosto molhado e os olhos voltados para o chão, avistou uma pequena pedra que estava pisando, segurou rapidamente e com um golpe arremesou com toda forca contra o espelho "mágico". Um grande barulho envolveu a sala e milhares de cacos de espelhos se chocarão contra o chão. Tudo que ele tinha ouvido naquela tarde tinha se partido em mil pedaços, finalmente tinha acabado todo o medo,remorcio e reputação. O menino já ofegante, cansado, porem leve, quase flutuante. Saiu da sala escura sem ousar em olhar pra trás, e naquele momento enquanto passava pela porta com um fino sorriso, tinha a certeza que seria feliz.




Gabriell Vieira